Zac Sweers fez um post no Twitter falando sobre as desigualdades de salários na indústria de tecnologia e como isso poderia impactar grupos como mulheres e outras minorias. Ele então afirmou que o melhor jeito de ajudar seria compartilhando o próprio salário, o que deu início a uma grande corrente, inicialmente com posts em Inglês, mas que logo teve adesão da comunidade em Língua Portuguesa também.

A corrente tomou grandes proporções e rapidamente foi possível ver diversos desenvolvedores compartilhando seus salários astronômicos enquanto outros ficavam frustrados por não ganharem nem um terço disso, mesmo às vezes tendo muito mais anos de experiência ou uma formação acadêmica bem mais sólida. Discutir salários é extremamente importante para entender e melhorar o seu posicionamento de mercado, mas existem outras formas de fazer isso, bem melhores do que uma corrente em rede social.

Um salário depende de diversos contextos. É importante frisar que nem sempre anos de mercado de trabalho vão significar que você é um profissional excepcional. Imagine um desenvolvedor formado com 8 anos de mercado, mas que passou a maior parte do tempo realizando tarefas simples. Imagine agora um outro desenvolvedor, autodidata, com apenas 3 anos de mercado, mas que esteve envolvido com diversos projetos inovadores e com tecnologias de ponta, resolvendo problemas avançados e que sabe falar Inglês. Qual dos dois você acha que deveria receber uma remuneração maior?

Existem outros fatores, como por exemplo a localidade em que a função é desempenhada. Observe os salários astronômicos na Bay Area em São Francisco, veja como eles estão desproporcionalmente acima de localidades como São Paulo. Mas já parou pra pesquisar quanto custa o aluguel nessas cidades? A diferença também é absurda. Nem precisamos sair do país pra observar diferenças no custo de vida. Compare São Paulo com uma cidade como Natal, no Rio Grande do Norte. Os salários são mais baixos em Natal, mas o custo de vida é bem menor do que um grande centro como São Paulo. Quantas pessoas dependem do seu salário para sobreviver?

Além do custo de vida, existem também variações na qualidade de vida. Pra você vale mais a pena ganhar mais, porém gastar mais com aluguel? Prefere pegar metrô todos os dias ou dirigir o próprio carro numa cidade com o trânsito mais tranquilo? Coloque na balança também as posições de trabalho remoto, que muitas vezes te pagam em moeda estrangeira como Euro ou Dólar.

Fatores pessoais também têm um papel importante. Como é o seu trabalho no dia-a-dia? Ele lhe satisfaz? Gosta da stack que vocês utilizam na sua empresa? Aprende muito no lugar que você trabalha? Tem feito muitas horas extras ou ficado de sobreaviso? Sofre abusos psicológicos ou burnout?

Salários vão depender do porte e do momento da empresa também. Como anda o faturamento? Sabia que faturamento alto não quer dizer necessariamente que a empresa tem um bom lucro? A folha de pagamento representa um grande percentual dos custos de operação?

O que quero dizer com esses questionamentos é que a thread de comparação de salários no Twitter é rasa e não há um benefício claro em participar dela, ao contrário do que sugere o autor do tweet. O que será feito com os dados adquiridos através dessa corrente? O Twitter não é exatamente um lugar em que vamos conseguir transformar toda essa informação em estatística. Sinceramente, ainda estou tentando entender se a maioria participou por ingenuidade ou por massagem de ego.

Existem outras formas de fazer benchmark do quanto você ganha. Experimente consultar sites como o Glassdoor ou plataformas como a Blind. Converse com os seus colegas de trabalho na sua própria empresa e tentem identificar discrepâncias e favoritismos. Procurem seus gerentes para tentar corrigir as injustiças e em último caso vá trabalhar em outro lugar, troque de empresa. Frequente grupos do seu cenário local e regional, compartilhe experiências, descubra o que as outras pessoas estão fazendo e com o que elas estão trabalhando.

Muitos poderiam argumentar também que redes sociais não são lugar para expor dados tão pessoais. Esse tipo de informação pode despertar interesses nefastos de pessoas próximas ou nem tão próximas assim, mas que de alguma forma têm acesso ao seu perfil. Além disso, saber quanto você ganha assim de cara pode proporcionar julgamentos rasos sobre quem você é e como se comporta. É importante que haja um filtro. São inúmeras as possíveis consequências sociais. Se você não é esse tipo de pessoa, excelente. Mas vale a pena lembrar que você não sabe verdadeiramente quem são as pessoas no seu círculo social e todo cuidado é pouco.

Por último, não entregue de mão beijada o quanto você ganha atualmente para que outras empresas tenham conhecimento sobre isso. As empresas frequentemente te oferecem menos do que elas estariam dispostas a pagar quando descobrem o seu salário atual. Você pode estar sendo mal pago e não sabe disso. Existem leis em alguns países que inclusive proíbem esse tipo de pergunta durante a contratação para proteger o histórico do candidato. Pergunte a faixa salarial ao seu recrutador antes de fornecer um valor desejado pelo qual desejaria trabalhar.